Sono Agitado e Falta de Atenção na Infância: Existe uma Conexão?
É um padrão que aparece com frequência no consultório, mas raramente os pais conectam os dois pontos: a criança que se mexe a noite inteira, chuta, se debate, não descansa de verdade — e a mesma criança que, de dia, tem dificuldade de manter o foco na escola. Geralmente cada sintoma é tratado como um problema isolado. Mas às vezes os dois têm a mesma origem.
O padrão que muitos pais não conectam
Os relatos costumam vir separados: “ele não para quieto na aula” numa consulta, “ela dorme muito mal, se mexe demais” em outra. Raramente alguém pergunta se os dois acontecem na mesma criança — e quando perguntam, a resposta é sim com uma frequência maior do que se imagina.
O que a ciência mostra sobre ferro e dopamina
O ferro é cofator direto da tirosina hidroxilase, a enzima responsável pela síntese de dopamina no sistema nervoso central — neurotransmissor diretamente envolvido nos circuitos de atenção e regulação do comportamento, e um dos alvos centrais de investigação no TDAH.
A Síndrome do Sono Agitado
Desde 2018, pesquisadores descrevem uma condição batizada de “Restless Sleep Disorder” (Síndrome do Sono Agitado): crianças com movimentação excessiva e contínua durante o sono, sem os critérios clássicos de outros distúrbios do sono, associada a níveis de ferro no sistema nervoso central. Esse tipo de sono fragmentado compromete justamente as fases mais profundas — exatamente as que consolidam atenção, memória e regulação emocional. Uma diretriz da American Academy of Sleep Medicine reforça esse ponto: recomenda avaliar ferritina e saturação de transferrina em crianças com sinais de sono agitado ou pernas inquietas, independente de haver anemia.
Isso significa que é TDAH?
Não necessariamente — e esse é um ponto importante. Ferro baixo pode produzir um quadro que se parece com desatenção e agitação sem ser, de fato, TDAH; e uma criança pode ter TDAH e, paralelamente, ferro baixo, o que agrava o quadro. A distinção exige avaliação clínica, não uma lista de sintomas.
O que fazer a partir daqui
Investigar ferro (com ferritina e saturação de transferrina, não ferro sérico isolado) é um passo simples e de baixo custo antes de qualquer conduta mais ampla. Não substitui avaliação de TDAH quando ela é necessária, e não deve levar a suplementação por conta própria — excesso de ferro tem seus próprios riscos. É informação para levar à consulta, não para se autotratar.
Referências: DelRosso, Bruni & Ferri, 2018 (PMID 29771368); American Academy of Sleep Medicine, guideline 2025 (J Clin Sleep Med); revisão sobre deficiência de ferro em TDAH e TEA (PMC12938977).
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