Essa semana, no consultório, atendi cinco crianças com queixas completamente diferentes: uma não dormia direito, outra não conseguia ficar quieta na escola, uma terceira vivia pálida e cansada, a quarta tinha a tireoide “meio lenta”, e a quinta não parava de pedir gelo. No fim de cada consulta, o fio condutor era o mesmo — ferro baixo — e em nenhum dos cinco casos havia anemia no hemograma.

Por que “sem anemia” não significa “sem problema”

O hemograma tradicional enxerga o ferro pela lente da anemia: hemoglobina baixa, hemácias pequenas. Mas o ferro participa de funções que se comprometem bem antes da anemia aparecer — produção de neurotransmissores, função da tireoide, regulação do sono. Uma criança pode ter hemoglobina perfeitamente normal e ainda assim ter reservas de ferro (ferritina) baixas o suficiente para afetar essas outras funções.

Os sinais que costumam passar despercebidos

  • Vontade de comer gelo, terra ou outras substâncias não alimentares (pica)
  • Unhas finas, quebradiças ou em formato de colher
  • Pernas inquietas ou movimentos repetitivos à noite, atrapalhando o sono
  • Palidez e cansaço sem explicação aparente
  • Dificuldade de concentração e irritabilidade

A ligação entre ferro, atenção e sono

O ferro é cofator direto da tirosina hidroxilase, enzima responsável pela síntese de dopamina — neurotransmissor amplamente associado à atenção e à regulação do comportamento. Essa relação vem sendo estudada especificamente em quadros de TDAH e TEA.

Uma diretriz clínica recente da American Academy of Sleep Medicine recomenda avaliar ferritina e saturação de transferrina em crianças com sinais de pernas inquietas ou sono agitado, mesmo sem anemia. Desde 2018, a literatura também descreve uma condição específica — o “Restless Sleep Disorder” (Síndrome do Sono Agitado) — associada aos níveis de ferro no sistema nervoso central.

Ferro e tireoide: a conexão que poucos investigam

A tireoperoxidase (TPO), enzima essencial para a fabricação dos hormônios da tireoide, é uma hemeproteína — construída, literalmente, com ferro. Por isso, uma criança pode ter TSH dentro da faixa de referência e, ainda assim, ter a função tireoidiana comprometida pela falta dessa matéria-prima.

Qual exame realmente pedir

Pedir “ferro” isoladamente costuma não ser suficiente. Ferritina (reflete o estoque de ferro no corpo) e saturação de transferrina (mostra quanto ferro está disponível para uso imediato) juntas dão um retrato bem mais completo — e são justamente os exames citados na diretriz internacional mencionada acima.

Quando vale procurar avaliação

Apresentar um ou mais desses sinais não significa necessariamente ferro baixo — outras condições podem gerar o mesmo quadro, e a interpretação correta depende do conjunto clínico, não de um sintoma isolado. O que vale é levar essa lista para a consulta e avaliar, junto com o pediatra, se faz sentido investigar.

Referências: American Academy of Sleep Medicine, guideline 2025 (J Clin Sleep Med); DelRosso, Bruni & Ferri, 2018 (PMID 29771368); revisão sobre deficiência de ferro em TDAH e TEA (PMC12938977).

Algum desses sinais bateu com o que você observa no seu filho? Agende uma consulta com o Dr. Rodrigo Ribeiro (presencial em Alagoinhas/BA ou por telemedicina) para uma avaliação individualizada.

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